ABORÍGINE RAP

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Aborígine - O azul de uma caneta I Part. Jesiel Candeia

Composição: Markão Natural da Terra

Acordo bem cedo, missão encontrar emprego. Ônibus lotado, mal alimentado, vários do mesmo jeito. Olhares em que só vejo insegurança O corpo de pé, mas adormecida a esperança. Pela janela noto boas condições, privilégios. Contando moedas para o meu retorno ao inferno Nessa curta viagem vejo dois mundos Onde sou um degrau a ser pisado na escada do futuro Sirvo pra servir, básico ao acabamento. Barrado na entrada, porta fechada, suspeito, elemento. Minhas mãos calejadas deram o nó em muitas gravatas O suor de meu rosto ainda limpa suas privadas A procura de mais uma chance... Aqui estou Chegou minha parada minha jornada começou Avenidas, endereços, entrevistas, imploro. Dou meu sangue por um subemprego, por favor, vem logo. Curriculum não tenho, mas me empenho palavra de homem. Minha agonia se soma a de todos os meus clones. Nunca, nunca, nunca posso desistir. 2x Bater de porta em porta e o que vier aceito. Lavador de chão, peão, servente, pedreiro. Aceito o que tiver de braços abertos Só pra ver meu filho com um caderno Não hei de me render, pois meu Senhor és forte. Um centavo honesto é um milhão perante o ouro do revolver Mesmo que do lixo tire meu sustento Da sobra do restaurante meu alimento O dinheiro é necessário pro comer, pro vestuário. Me contento com diárias, mas meu sonho é um salário E na carteira de trabalho ver o azul de uma caneta Hoje não realizado! No céu estrelas Que iluminam meu desgosto, meu entristecer. Juntamente a uma pergunta: Emprego algum por quê? Talvez porque o segundo grau não tenha completado Ou pelo endereço do meu lar, do meu bairro. Entre o endereço de firmas perdi meu vale transporte Dormi fora de casa não pode Se eu pedir eu sei que alguém vai me ajudar "Sai fora vagabundo tu quer é si drogar". Nunca, nunca, nunca posso desistir. 2x Achei uma cobertura vou deitar, tenta dormir. Espero que ninguém venha se divertir Minha carteira de trabalho em branco vira um diário Onde a caneta azul escreve o triste fato Mais um dia cansado, sem emprego. Portas se fechando, o caminho mais estreito. Escutando insultos, vítima do preconceito. "Não contrato bandido, não contrato preto". Pros homens um suspeito, humilhado pela madame. Soco, sangue, e como se não fosse o bastante. Sem emprego, sem experiência. Será que acordar com consciência? E ver minha família sem um salário Ou será que esta noite morrerei queimado? Nunca, nunca, nunca posso desistir. 2x Não posso desistir, vou ter que prosseguir, pois a caminhada é árdua na nação; É triste meu irmão, ver meu filho sem um pão, mas se hoje eu não consigo amanhã eu vou atrás. Meu filho não vai mais chora, minha mulher vai se alegrar, uma vida boa eu vou lhes dar. E tirarei as amarguras O sofrimento, a dor sem cura. E lhes trarei tudo de bom eu sei. Derrotado nunca serei. Mãe por que o papai ta demorando? Será que vai trazer o brinquedo que quero tanto? Eu vejo em teus olhos que a senhora ta preocupada A senhora sabe de alguma e não quer me dizer nada Não, não é nada não, são apenas algumas contas que tenho para pagar Vai assistir o desenho que já vai começar Mas a esperança e o desenho foram interrompidos Acharam na noite passado o corpo de um mendigo E uma voz inocente que não exita em dizer Mãe olha o papai na TV.

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Markão Aborígine é poeta, escritor, rapper e militante da Cultura Hip Hop do Distrito Federal há aproximadamente 19 anos, filho de nordestinos, conheceu a poesia através de seu avô, Pedro Graciano Dantas, cordelista do interior paraibano. No Distrito Federal já morou em Ceilândia e reside desde 1989 na cidade de Samambaia, onde fundou e desenvolve projetos culturais. Possui dois álbuns e dois livros lançados.

Do primeiro palco que se apresentou em 1998, até o lançamento do livro Hip Hop em Mim em janeiro de 2017, participou e venceu concursos estudantis de música, foi apresentador de programa em Rádio Comunitária no interior da Paraíba.

Fundou os projetos: Sarau Samambaia Poética, Cineclube Câmbio Negro. Idealizou e produziu o ‘Prêmio Hip Hop Zumbi’, a primeira premiação da cultura Hip Hop do Distrito Federal. Em síntese, a obra de Markão Aborígine, na literatura e na música, pode ser resumida numa prática militante, agregadora e difusora, pois sempre buscou coletivizar as produções e processos, seja como apresentador de eventos, músico, arte-educador ou editor, sempre buscou democratizar o acesso e oportunidade, resgatar a memória e reconhecimento ao Hip Hop feito na capital do país.

Além da música, Markão Aborígine desenvolve ações junto a literatura e produção cultural como exposto acima, realizando cineclubes, saraus e eventos de Hip Hop. Em 2008 fundou o Coletivo ArtSam, grupo autônomo de jovens de Samambaia e Recanto ao qual protagonizam muitos destes projetos.

Em 2011 iniciou o projeto Poesia em Coletivo que distribuía poesia em paradas de ônibus e estações do Metrô. A partir desta iniciativa produziu seu primeiro livro intitulado ‘Sem rosto, família ou nome’. Adquirindo experiência em diagramação e publicação artesanal produziu livros de jovens poetas brasilienses como Fernando Borges, morador da Estrutural com seu livro ‘Favela como ninguém viu’ e ‘Mulher Quebrada’ uma coletânea com escritoras e poetisas de diversas cidades do DF.

Sua música o levou ao Premio Tom Jobim de Música, premio nacional da canção produzido pelo SESC saindo com a terceira colocação, tornando-se o primeiro rapper a conseguir tal feito. Músicas, poesias e textos são utilizados por profissionais da educação, sendo que em 2014 fez parte da metodologia RAPedagogia do Oprimido produzido pela Subsecretaria de Diversidade da Secretaria de Educação.

CONTATOS

Fone: 61 9 9602 6711
E-mail: contatoaborigine@gmail.com
Blogue: https://goo.gl/PztgbG
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Soundcloud: https://goo.gl/2hAZTY

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