Vaca Vermelha
Composição: Aládio Dulli... Ver tudoSai de madrugada pra outra invernada,
Pra buscar boiada que o patrão comprou.
Campo molhado, cerração fechada,
E o Rio Santo Cristo na frente estalou.
Uma vaca vermelha, de pêlo queimado,
Das mais bonitas que no lote havia,
Olhou pro rio fundo, pra água corrente,
E se largou num pulo, valente e bravia.
Eu vi ela boiando, lutando com a água,
E o coração de campeiro não aguenta ver.
Larguei chapéu e bota na beira do barranco,
Me larguei a nado pra não a perder.
Nadei, peito aberto, na água fria,
Lutei com a correnteza até alcançar.
Peguei pelos chifres aquela vermelha,
No braço, na força, pro barranco empurrar.
Ô Santo Cristo de água barrenta,
Quase me leva pro teu fundo sem fim.
Salvei a vermelha das tuas correntes,
E quase que as corrente me salvam de mim.
Chegamos no barranco, vencida a corrente,
Armei o laço, tremido, cansado.
Passei a corda no chifre dela,
Pensei: "tá pronta, graças a Deus, laçado".
Mas quando ela subiu, firmou as patas no alto,
Deu de cara a cachorrada latindo sem parar.
Se assustou a bicha, rodou o corpo num coice,
E voltou pra cima de mim pra me chifrar.
Foi um golpe seco, bem na boca do estômago,
O chifre entrou como faca, tirando o ar.
Com o impulso da batida, do coice daquela vaca,
Fui direto pro rio, de novo a boiar.
Água na boca, sangue e barro misturado,
Vi minha vida passando naquela água turva.
A vermelha me olhando lá de cima do barranco,
E eu boiando, quase morto, na curva.
Ô Santo Cristo, rio de pouca piedade,
Quase me mata uma vaca de pelo encarnado.
Fui buscar boiada e voltei marcado,
Com a marca do chifre bem no costado.
E até hoje quando passo nessa invernada,
Na beira do rio onde quase morri,
Escuto o latido da cachorrada,
E a vermelha bufando, me esperando ali.

