ALCYVANDO LUZ

Cidade/EstadoSalvador / BA
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OuvintesAnnajulia Brazjorge e outros 57 ouvintes
Fã-clubeSelma Elias dos Santos e outros 15 fãs

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Alcyvando Luz, fala moço!

A identidade cultural do povo baiano é formada por diversas vertentes, entre elas a mais forte, sem dúvida vem da influencia dos negros, que trouxeram toda a sua rica e diversa forma de viver e conviver manifestada na pujança de suas tradições. Mas, por ser a Bahia, um Estado com uma dimensão territorial muito grande, sofreu também a depender da região e da distância que essa tem da capital, outras influências e tradições culturais constituindo a sua pluralidade, o que enriqueceu sobremaneira o universo cultural do povo baiano. Essa pluralidade é facilmente observada quando verificamos os aspectos culturais do sul do estado com o ciclo do cacau, da região sanfranciscana, onde afluem as tradições ribeirinhas trazidas pelas histórias e lendas do Rio São Francisco, do recôncavo com suas manifestações oriundas da forte presença do negro, do extremo sul onde a presença indígena se fez mais forte, a chapada diamantina com o ciclo dos diamantes e culminando na região do sertão ou semi árido, quando verificamos a rica e diferenciada vida do sertanejo, representada pelas dificuldades que enfrenta, caracterizando e demonstrando sua força de sobrevivência de diversas maneiras, inclusive através da música.

Diante de um universo tão vasto, é claro que houveram representantes dignos que sobressaíram de forma vigorosa trazendo para o grande palco da vida a riqueza de suas tradições, divulgando-as para que todos sem exceção pudessem conhecer um pouco mais a riqueza que se esconde dentro dos diversos caminhos que levam ao interior de cada região da Bahia. Entre esses representantes destacam-se os músicos e intérpretes, personagens de uma história que são a sua própria, e que propõem dividi-la com todos aqueles que querem admirar ou conhecer a sua verdadeira identidade, que afinal é a de todos nós.

A lista desses notáveis artistas é longa, mas vamos nos ater agora a apenas um, o cantor, compositor e instrumentista Alcyvando Luz. Nascido em Barreiras, oeste da Bahia em 1938, iniciou sua carreira ainda menino em Belo Horizonte tocando cavaquinho nas rádios Guarani e Inconfidência. Em 1955 ingressa em uma banda na sua cidade natal e toca inicialmente piston e depois saxofone. Muda-se logo depois para Salvador e ingressa na escola de música da UFBA passando a integrar a Orquestra Sinfônica da Bahia como segundo trompetista, sendo o último aluno do maestro Horst Schwebell.

Um dos mais talentosos artistas de sua geração, Alcyvando Luz, participou do show de inauguração do Teatro Vila Velha intitulado Nós Por Exemplo, na noite de 22 de agosto de 1964 interpretando seu samba Bem Bom Tom além de se exibir tocando violão, trompete e contrabaixo.

Apelidado de Nêgo Veio e integrado na vida artística e boemia da capital baiana, faz inúmeras amizades, dentre elas com o juiz Carlos Coqueijo Costa, grande poeta e admirador da música popular brasileira. Da amizade surge uma profícua parceria que iria render excelentes frutos para a nossa música. Em 1967 realizava-se no Rio de Janeiro o II Festival Internacional da Canção Popular e entre as canções classificadas da fase nacional para disputar o primeiro lugar estava O Sim Pelo Não de Alcyvando e Carlos Coqueijo, defendida pelo grupo vocal MPB 4 que depois a gravou em seu terceiro LP. A música foi também gravada no disco que incluía as melhores do festival, interpretada por Alcyvando Luz.

Para encontrar a esperança vim lhe buscar
Vamos que o novo amanhã já vem
Todo mundo vai cantar

A vida que se perdeu na terra em que se lutou
O tempo que era seu, quem paga não lhe pagou
Quem morreu não protestou

Se eu vivo neste sertão, se eu me plantei neste chão
Eu troco o sim pelo não e tranco meu coração
Vou brigar meu povo não.

Com seus méritos reconhecidos e gozando de prestigio no meio musical e intelectual da Bahia, Alcyvando Luz, inicia durante a década de 70 a fase áurea de sua carreira marcada com inúmeras canções com temática sertaneja, onde deixa afluir toda a influencia que recebia de suas raízes, fincadas no sertão baiano. Uma das músicas mais expressivas dessa fase é a Ave Maria dos Retirantes, feita em homenagem a sua cidade, Barreiras, composta em parceria com Carlos Coqueijo e gravada com muito sucesso por Clara Nunes, Fafá de Belém e outros artistas.

Caí do céu por descuido, se tenho pai não sei não
Venho de longe seu moço de um lugar chamado sertão
Vivo sozinho no mundo, zombei da sede, zombei
Cortei com minha peixeira todo o mal que encontrei

Vim caminhando, enfrentando as terras que o sol secou
Até chegar na cidade dos homens que Deus olhou
Que o santo Pai me perdoe a triste comparação
Melhor viver no cangaço que a tal civilização

Brinquei com o mal, brinquei
Sorri quando eu matei
Eu vim pra ser melhor
Cheguei aqui, chorei

É hora em que a morte é certa
Mas ninguém deserta se for pra lutar
No peito coração aberto, esperança perto sem querer chegar
Coragem mansa eu tive até partir
Pra não morrer de fome igual, fugir
E andei errando pela vida afora, sempre indo embora
Dei voltas no mundo, vim morrer aqui

Quanta cruz no meu caminho
Faca de sol, poeira, espinho
Bom Jesus ore por mim
Da solidão cansado eu vim.

Artista plural, Alcyvando Luz também compôs diversos sambas ao estilo Bossa Nova que fizeram sucesso, mesmo porque era um admirador do gênero, entre essas canções a que obteve maior destaque foi É Preciso Perdoar, gravada com muito sucesso por João Gilberto em 1973. Suas canções foram gravadas por grandes intérpretes da música popular como o Quarteto em Cy, Maria Creuza, Stan Getz dentre outros. Gravou em 1980 o LP Fala Moço onde se destaca Latomia do São Francisco com Cardan Dantas e Wilson Lins; Pra que sofrer com Ruth Pondé e Caipira com Capinan. Em 1993 lançou seu segundo disco Bahia de Oxalá que teve a participação de Caetano Veloso e Xangai.

A madrugada já rompeu
Você me abandonou
Eu sinto que o perdão
Você não mereceu
Eu quis a ilusão agora a dor sou eu

Pobre de quem não entendeu
Que a beleza de amar é se dar
E só querendo pedir
Nunca soube o que é perder pra encontrar

Eu sei que é preciso perdoar
Foi você quem me ensinou
Que um homem como eu
Que tem por quem chorar
Só sabe o que é sofrer
Se o pranto se acabar.

Alcyvando Luz, faleceu em Salvador aos 60 anos em 23 de abril de 1998 deixando um vasto e inédito material incluindo cerca de 20 composições. Faz-se necessário que sua obra seja resgatada e suas músicas inéditas gravadas, bem como todo o seu acervo, pois ele faz parte da história musical baiana e brasileira e não pode cair no esquecimento. Vamos colocar o Nêgo Véio de novo nas paradas, ele merece!


Luiz Américo Lisboa Junior
Itabuna,20 de fevereiro de 2003.

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