Hábeis E Úteis
Composição: Maria Aparecida de Almeida.Os dois gatos
Dois bichanos, nascidos ambos sob o mesmo teto.
Eram, como acontece entre mãos, diferentes de humor,
como de aspecto.
O mais velho dos dois, dava gosto de olhar.
Dir-se-ia um cônego em arminho.
Tão rechonchudo era, liso e bem disposto.
Olha todo carinho...
E, além do mais, dado à preguiça e à gula.
Quanto ao caçula...
Ora! Vede se tinha compostura aquilo...
Um verdadeiro gato pingado!
Sobre a espinha recurva ao feitio de uma rede,
não tinha mais que a pele, o desgastado.
No entanto passando a noite, o dia inteiro,
a correr, do porão à água-furtada,
na tenaz procura de possível caça.
Apesar disto...nada!
Sempre chupado como um gato em passa...
Lá um dia, diz ele a seu irmão:
--Eu sempre no serviço e tu, sempre, no sono,
ó sorte desigual! Por que motivo então nos trata o nosso dono,
a ti, tão bem e a mim tão mal?
Não, francamente, eu não entendo isso...
O mais velho respondeu:
--Mas é claro!
Só Deus sabe a existência
que tu passas...
E todo esse trabalho cansativo e longo pra final,
de raro em raro, comer, tristonhamente,
um triste camundongo!...”
--Pois não é meu dever? Diz o caçula.
--Seja! Mas eu, meu caro,
estou sempre ao lado do patrão.
Divirto-o com minhas graças,
esfrego o pelo em suas calças e ronrono
e me enrosco e me contorço...
E assim, sem maior esforço, v
Você ganha um vidão regalado e tranqüilo.
Carícias falsas e maneiras fúteis,
isso agrada ao patrão...
Mas tu, para teu mal,
só o que sabes é servi-lo!
Olha, maninho, o essencial
é fazer-nos hábeis e não só úteis!

