Menina E A Luz
Composição: Maria Aparec... Ver tudoA noite descia tão fria,
a neve cobria o chão,
e uma menina seguia
com fósforos pela mão.
Passava por tantas janelas,
ouvia risos no ar,
via as casas tão belas,
mas não podia entrar.
Seus pés já estavam cansados,
o vento cortava seu rosto,
os passos ficaram parados
num canto estreito e exposto.
Ninguém comprara um fósforo,
ninguém perguntou quem era,
e ela abraçou os joelhos
enquanto a cidade adormecera.
Refrão
Acende um fósforo, menina,
faz a noite clarear,
uma chama pequenina
também pode iluminar.
Enquanto houver uma esperança,
mesmo breve como a luz,
há um sonho de criança
que no escuro ainda reluz.
Ela riscou o primeiro,
e a chama começou a dançar,
parecia haver um braseiro
bem diante do seu olhar.
Sentiu suas mãos aquecidas,
o frio pareceu partir,
mas quando a chama apagou,
viu o sonho também fugir.
Riscou outro, bem depressa,
e uma mesa apareceu,
com toalha branca e festa,
como ela nunca viveu.
Havia comida quentinha,
um cheiro bom pelo ar,
e os olhos daquela menina
começaram a se encantar.
Refrão
Acende um fósforo, menina,
faz a noite clarear,
uma chama pequenina
também pode iluminar.
Enquanto houver uma esperança,
mesmo breve como a luz,
há um sonho de criança
que no escuro ainda reluz.
Outro fósforo se acendeu
e uma árvore ela avistou,
cheia de luzes e estrelas,
como nunca imaginou.
Parecia que cada brilho
vinha só para lhe dizer:
“Mesmo no meio da noite,
ainda é possível sonhar e viver.”
Mas outra vez veio o escuro,
e a árvore desapareceu.
Uma estrela riscou o céu,
e a menina então percebeu:
lembrava uma antiga história
que a avó costumava contar:
“Quando uma estrela cai,
uma alma vai se encontrar.”
Então veio outra chama,
e algo diferente aconteceu:
no meio daquela luz
o rosto da avó apareceu.
Era o carinho guardado,
era o abraço que conhecia,
era a lembrança mais bonita
que em seu coração ainda vivia.
“Vovó, não vá embora!
Fique um pouquinho aqui.
Quando a chama desaparecer,
eu sei que não vou mais te ver daqui.”
E com medo de perdê-la,
sem querer deixar a luz partir,
a menina acendeu os fósforos,
todos, para vê-la sorrir.
Ponte
E a rua ficou iluminada,
como se fosse amanhecer,
não havia mais frio ou medo,
só aquela luz a envolver.
E nos braços da lembrança
ela finalmente descansou,
enquanto a noite silenciosa
sobre a cidade passou.
Quando o novo dia chegou,
encontraram a menina ali,
com os fósforos consumidos
e um sorriso leve a surgir.
Disseram: “Tentou se aquecer...”
e continuaram a caminhar.
Mas ninguém soube dos sonhos
que ela conseguiu enxergar.
Ninguém viu aquela mesa,
nem a árvore a brilhar,
ninguém viu o rosto da avó
que ela tanto quis abraçar.
Ninguém soube que uma chama,
por menor que possa parecer,
deu àquela pequena menina
um último mundo para viver.
Refrão final
Acende uma luz, menina,
que eu também quero enxergar
quantas crianças no mundo
ainda esperam nosso olhar.
Que não seja um fósforo breve
a única luz que alguém tem.
Que nenhuma criança precise
sonhar com o calor de alguém.
Se uma chama pequenina
pode a noite iluminar,
um gesto nosso, talvez,
possa uma vida mudar.
E quando passar uma criança
que o mundo resolveu não ver,
não deixe que apenas seus sonhos
tenham coragem de a acolher.
Acenda uma luz de verdade:
um abraço, um pão, um lugar.
Porque criança nenhuma
deveria ter frio para sonhar.

