O Afilhado Do Senhor Das Serpentes (3)
Composição: Maria Aparecida de Almeida.ntrodução
[verso]
Nas margens de um rio de sombras esquecidas,
Onde o tempo se perde em voltas recorrentes,
Nasceu um menino, de escolhas divididas,
Tendo por padrinho o Senhor das Serpentes.
Não houve batismo com água da fonte,
Mas um pacto selado em chama de brasa;
O Diabo, em pessoa,riscou o horizonte
E disse ao afilhado: "O mundo é sua casa".
Cresceu o rapaz com a sorte na mão,
O ouro brotava onde ele pisava,
Tinha o poder da persuasão e o domínio da sedução,
E tudo o que queria, o abismo lhe dava.
Mas quem tem a sombra por guia fiel,
Sinte o frio do pacto em cada estação;
O céu, para ele, era apenas um véu,
Pois dentro do peito pesava a solidão.
O afilhado, porém, de astúcia tamanha,
Sabia que a alma é o preço final;
Jogou com o mestre, em uma estranha fachada,
Num jogo de dados, o bem contra o mal.
Dizem que venceu por um triz, por um nada,
O contrato rasgado em cinza e fumaça,
E embora vivasse uma vida dourada,
Ficou-lhe a marca, a eterna desgraça.
Pois quem foi afilhado de tal soberano,
Não busca o perdão, nem almeja o clarão;
Vagueia entre o mito e o resto humano,
O homem que venceu, mas perdeu o chão

