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Oficina Sonora Quietanto
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Cidade/EstadoBrasília / DF
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Cais De Apartamento

Composição: Quietanto.
Ela dobra a mala vazia guarda no alto, perto do telhado Como quem deixa a partida num canto ainda não iluminado A varanda é um porto suspenso com morro e antena em vez de mar Nos fios, os postes acendem feito navio que esqueceu de zarpar No espelho, um rosto cansado aprendendo a envelhecer Entre planilhas, compromissos e um susto miúdo de enlouquecer Ela acende uma vela pequena, não por crença, só por calor A chama risca sombras na parede que lembram uma dança que não dançou E ela pensa: “tanto curso, tanta tese, tanto plano pra me assegurar Ainda assim, na hora em que o prédio emudece, eu me sinto à deriva no mesmo lugar” Meu cais é esse apartamento onde os barcos são pensamentos que chegam sem horário, sem papel Eu olho a serra em contorno escuro e peço ao vento algum seguro, um norte escrito num canto do céu Mas o tempo passa e, quase sempre, eu só aprendo a não doer tão cruel Na estante, livros modernos falando de escolha e direção Ela marca de lápis as frases difíceis e esquece de marcar o próprio coração Na pia, a água cai em silêncio como relógio que perdeu razão Ela desliga, seca as mãos num pano bordado de recordação E ela pensa: “tanta teoria sobre o sujeito, sobre esse eu que precisa brotar Mas ninguém me ensinou como acolher essa parte sem brilho que insiste em ficar” Meu cais é esse apartamento onde os barcos são pensamentos que encostam, prometem e somem no final Eu olho a cidade, esse mar impaciente, e peço coragem, docemente, pra me tratar com menos mal Se a vida é onda, que eu aprenda a atravessar meu próprio temporal Ela apaga a vela, fecha a cortina, mas deixa a frésta pra lua entrar Porque, por mais que a melancolia sente ao lado, sempre tem um pedaço de amanhã querendo ancorar.

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