Gaveta Chamada Amanhã
Composição: Quietanto.
Amanhã…
amanhã pra mim são quinze.
Mas quem toca o amanhã
sem atravessar a neblina?
A mão só conhece
o que já doeu na pele.
Primeiro foi só o calendário na parede,
uma folha torta, um número azul.
Depois foi a xícara fria na pia,
o sol entrando sem fazer nenhum sinal.
Depois foi a camisa na cadeira,
a poeira dormindo sobre o chão,
a casa inteira respirando baixo,
como quem guarda uma respiração.
Eu disse: amanhã eu vejo.
Amanhã eu ligo.
Amanhã eu peço perdão.
E o relógio, feito um bicho pequeno,
roía a beira da minha mão.
Mas e se o amanhã não vier?
Mas e se a porta não abrir?
Mas e se a luz que eu deixei pra depois
não souber mais me seguir?
Hoje, hoje, hoje…
cadê o hoje?
Escorre pelos meus dedos
feito água sem nome.
Hoje, hoje, hoje…
me chama de dentro do ar.
Por que guardamos a vida
numa gaveta chamada amanhã?
Depois vieram pratos, contas, cartas,
roupa suja, silêncio, jornal.
Depois vieram frases pela metade,
o amor sentado no degrau.
Depois veio a palavra engolida,
o abraço dobrado no armário,
a conversa que perdeu o corpo
presa no vidro do calendário.
Deixo pra depois a casa.
Deixo pra depois a dor.
Deixo pra depois o riso.
Deixo pra depois o amor.
E de tanto empurrar o mundo,
o mundo ficou longe de mim.
E de tanto adiar a vida,
a vida perguntou: “até quando assim?”
Mas e se o amanhã não vier?
Mas e se o trem não voltar?
Mas e se a boca que ia dizer “fica”
não tiver voz pra falar?
Hoje, hoje, hoje…
cadê o hoje?
Escorre pelos meus dedos
feito água sem nome.
Hoje, hoje, hoje…
me chama de dentro do ar.
Por que guardamos a vida
numa gaveta chamada amanhã?
Uma vela, duas sombras,
três retratos no corredor.
Quatro passos sem destino,
cinco nomes para a dor.
Seis estrelas no teto do quarto,
sete luas no mesmo lençol,
oito medos dançando no copo,
nove voltas em torno do sol.
Dez promessas na ponta da língua,
onze portas sem maçaneta,
doze sonhos dentro do peito,
treze chaves numa gaveta.
Quatorze vezes eu disse “amanhã”,
quinze vezes calei minha sede.
E o hoje, com os pés descalços,
passou por dentro da parede.
Se não tiver amanhã,
quem seremos nós?
A poeira? A mesa?
A última luz do poste?
Se não tiver amanhã,
para onde irá
o beijo que ficou suspenso,
o perdão que não saiu da garganta,
o pão que ninguém partiu?
Hoje, hoje, hoje…
cadê o hoje?
Escorre pelos meus dedos
feito água sem nome.
Hoje, hoje, hoje…
me chama de dentro do ar.
Por que guardamos a vida
numa gaveta chamada amanhã?
Amanhã são dezesseis,
mas só pra quem acordar.
Pra quem fechar os olhos antes,
nenhum número vai virar.
Amanhã é uma promessa
com assinatura de fumaça.
A gente lê, acredita, guarda,
e ela se desfaz na praça.
Então lava o copo, abre a janela,
tira a poeira do violão.
Diz agora o que pesa tanto,
põe agora a mão na mão.
Hoje, hoje, hoje…
cadê o hoje?
Escorre pelos meus dedos
feito água sem nome.
Hoje, hoje, hoje…
me chama de dentro do ar.
Não quero guardar a vida
numa gaveta chamada amanhã.
Hoje, hoje, hoje…
fica um pouco mais.
O amanhã é só neblina,
o hoje sabe onde a gente faz.
No fim,
quem ficou e quem partiu
talvez descubra devagar:
o amanhã não prometeu nada…
fomos nós que quisemos acreditar.
Hoje…
hoje…
hoje…

