Gente Nas Janelas
Composição: Quietanto.No segundo andar, dona Lúcia borda,
olhando a chuva cair na ladeira.
Linha amarela riscando o pano,
como quem rabiscasse a própria espera.
Foto do marido sobre a estante,
moldura torta e um pouco de fé.
Ela serve o chá pra xícara vazia
e pergunta baixinho:
“Cadê você, Zé?”
Cadê você, Zé?
Cadê você?
Quantas vidas cabem numa rua
que ninguém para pra ver?
Quantos nomes a gente esquece
antes mesmo de aprender?
Melancolia é isso:
muita casa acesa,
muita casa acesa
e ninguém pra te reconhecer.
Ninguém pra te reconhecer...
No oitavo andar, seu Augusto digita
mais um projeto que não é seu.
Quadro motivacional na parede
e um cansaço que ninguém leu.
Ele guarda diplomas na pasta
como quem guarda chuva sem chover.
O espelho do banheiro se espanta
quando ele pergunta:
“Quem é você?”
Quem é você?
Quem é você?
Quantas vidas cabem numa rua
que ninguém para pra ver?
Quantos sonhos se dissolvem
no café corrido,
no metrô a descer?
Melancolia é isso:
muita senha, muita conta
e ninguém pra te reconhecer.
Ninguém pra te reconhecer...
Dentro do ônibus, eu olho pra cima,
vejo essas janelas como televisão.
Cada rosto, um capítulo breve,
que termina antes da conclusão.
Eu também carrego meu roteiro:
lista de tarefas, medo e dever.
E às vezes me pego no vidro escuro
me perguntando:
“Que falta dói em você?”
Que falta dói em você?
Que falta...
dói em você?
Quantas vidas cabem numa rua
que ninguém para pra ver?
Quantas solidões de vidro
esperando alguém aparecer?
Melancolia é isso:
muitos mundos paralelos
e um desejo simples de pertencer.
Um desejo simples...
um desejo simples
de pertencer.
Quantas vidas cabem numa rua
que ninguém para pra ver?
Quantas solidões de vidro
esperando alguém aparecer?
Melancolia é isso:
muitos mundos paralelos
e um desejo simples de pertencer.
De pertencer...
de pertencer...
Quantas vidas cabem numa rua?
Quantas vidas...
Um desejo simples
de pertencer.

