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Oficina Sonora Quietanto
EstiloMPB
Cidade/EstadoBrasília / DF
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Terça Feira Às Quatro

Composição: Quietanto.
Hoje eu virei uma caixa de fotos na mesa da sala E vi um moleque em mim que eu não deixei sair pra rua Eu vivia ocupado em salvar o amanhã que nem tinha chegado Roendo o futuro como chiclete, sem resolver conta nenhuma Eu tinha o corpo inteiro e achava pouco Me via torto em qualquer espelho de vitrine Agora eu enxergo ali, na borda das imagens Um mundo aberto que eu deixei pra depois de “quando der” Eu devia ter dançado mais no meu quarto Devia ter cantado alto, mesmo fora do tom Devia ter cuidado melhor dos meus joelhos Pra ainda correr atrás do que me chama hoje Eu digo pra mim: Eu não vou mais gastar meu dia com inveja Às vezes eu ganho, às vezes eu apanho, e tudo bem No fim das contas, é só eu contra eu E eu escolho ficar do meu lado também Eu lembro das vezes que pesei a mão no coração dos outros Brinquei de ir embora sem pensar no tanto que doía Hoje eu protejo o meu, mas abro espaço na mesa Pra quem chega inteiro, não só pra quem chega bonito Guardo num envelope velho os elogios que não esqueci E jogo fora extrato, prazo, taxa e senha Descobri que vale mais a carta torta que me escrevi Do que qualquer saldo que a ansiedade desenha Eu devia ter enfrentado um medo por dia Uma conversa difícil, um salto no desconhecido Agora, devagar, eu treino a coragem atrasada Como quem alonga o corpo antes do perigo Eu digo pra mim: Eu não vou mais gastar meu dia com inveja Às vezes eu ganho, às vezes eu apanho, e tudo bem No fim das contas, é só eu contra eu E eu escolho ficar do meu lado também Naquela terça-feira morta, quatro da tarde no relógio A vida me pegou num flanco que eu nem sabia que existia Não era o medo que eu ensaiava, era outro, sem nome Desde então eu aprendi que o susto nunca manda aviso Hoje eu me estico no tapete, escuto minha respiração Aprendi a cuidar desse corpo que um dia eu zombava Ele é o único instrumento que eu realmente comprei Parcelado em anos, mas à vista de alma Eu digo pra mim: Eu não vou mais gastar meu dia com inveja Às vezes eu ganho, às vezes eu apanho, e tudo bem No fim das contas, é só eu contra eu E eu escolho ficar do meu lado também E se eu tiver que dar um conselho pra mim, agora: Eu me protejo por fora e por dentro Do sol, da culpa, do medo do espelho E sigo, mais leve, como quem enfim se perdoa.

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