O Fragmento Queimado
Composição: LUCAS POLONIA.O FRAGMENTO QUEIMADO
(LUCAS RIOS)
Não foi o vento que apagou o verbo.
Foi a mão banhada em ouro e decreto.
Rasgaram o silêncio antes da aurora,
mas a brasa dormia debaixo do teto.
Na dobra do tempo, um nome murmura
sem língua, sem rosto, sem altar.
Não se grava o que brota da terra —
só se escuta com os ossos do olhar.
O trono silenciou a linhagem.
Chamou de heresia o que nasceu em ventre.
Mas o pó guardou o que foi riscado,
escondido entre dentes e correntes.
Queimaram o fragmento — mas restou vibração.
A verdade escorre por frestas da tradição.
O verbo não habita livros selados,
mas vibra no som dos que não foram calados.
Sob pedra rachada e templo vazio,
há vozes que dormem de olhos abertos.
São sementes que recusam vitrine,
e crescem em desertos incertos.
O nome oculto nunca se perdeu —
foi sussurrado em corpos de barro.
Esculpido no pulso dos não eleitos,
sangra quieto, mas nunca raro.
Eles ergueram doutrina com cinzel de medo,
mas não fecharam a fenda da canção.
Ela escapa em tambores que não obedecem,
e retorna no passo de quem tem chão.
Queimaram o fragmento — deixaram o sinal.
A linhagem ecoa sob véus de sal.
Quem lê com a pele decifra o mistério:
o verbo que arde… ainda é etéreo.

