Confiar
Composição: Walber Costa.Título: Confiar
O relicário de vidro foi aberto sob a luz do crepúsculo.
Entreguei as chaves dos jardins de minha ancestralidade,
As heranças do sangue, os sussurros que a parede guardava.
Mas a mão que acolheu o segredo portava a lâmina do eclipse.
O solo sagrado da minha casa foi arado com o sal da calúnia,
E o trigo que alimentava o orgulho secou antes da colheita.
O inverno desceu sobre a alma, e as portas se fecharam por dentro.
O silêncio tornou-se o único teto contra o vento da decepção.
Anos arrastaram-se como cinzas em um altar abandonado,
A amargura destilava seu licor escuro em minhas veias,
Afastando o mundo, sepultando o verbo, apagando o farol.
Então, a semente antiga rompeu o asfalto do meu deserto.
Minha filha, com as mãos feitas de aurora e o olhar do recomeço,
Puxou-me do abismo de espelhos onde eu me assistia quebrar.
Ela trouxe o vento que limpa a poeira das janelas esquecidas.
Levantei-me, mas os passos ainda eram trôpegos no chão de vidro;
O peso do ontem exigia um cajado, um norte, uma bússola exterior.
Aproximei-me do altar dos guias, buscando a cura para a cicatriz antiga.
Depositei minhas fraquezas aos pés daquele que prometia a rota.
Mas o farol que deveria guiar os barcos na tempestade
Era apenas um espelho apontado para o próprio sol de sua vaidade.
A segunda queda ecoou no vale, o abraço do mentor era uma teia,
E a traição vestiu a capa da falibilidade para justificar o veneno.
Mas como confiar?
Em pessoas que foram enviadas para nos ajudar?
São apenas homens, que decidem como anjos e não com espírito.
Sim, apenas homens... buscando a coroa na poeira da imperfeição.
A lição final não foi escrita com a tinta do ódio, mas com a lucidez do fogo.
Olho para as mãos vazias e percebo o templo que ainda habito.
As feridas duplas são marcas de quem ousou navegar em mares turvos.
O erro não foi estender a mão, mas esquecer que até as estrelas guias
São feitas da mesma matéria frágil que queima e se apaga no cosmos.

