Contrato De Sangue
Composição: Walber Costa.Título: Contrato de Sangue
O contrato enfim foi selado, está pronto.
Não pedem a firma, mas o pulso, o confronto.
Compram o resto da tua primavera, em troca,
Um rifle de plástico e um horizonte que sufoca.
Foste treinado a ser a peça da engrenagem,
Que mói a si mesma na vã reportagem.
Dizem que o sangue as máquinas lubrifica.
"É pela economia", a gravata justifica,
Enquanto a fome calada vira o estrondo do obus.
Preferem o aço que fura à ceifa que conduz;
É mais fácil exportar a morte em série,
Do que nutrir a carne que eles mesmos repelem.
Ah, contempla o teu traje, o uniforme,
Alvejado na hipocrisia, em nylon disforme.
Prometem o céu em discursos de pódio,
Enquanto, na sombra, destilam o ódio;
Contam as moedas de cada suspiro teu no front,
Nos escritórios, bebendo o vinho que nos põe em monte.
Lá, o inimigo não é homem, é só um dado no gráfico,
Que chamam de "progresso" em tom enfático.
Te arrastas na lama, sentindo o ferro gélido,
Do outro lado, alguém tão descartável e pálido,
Só com a bandeira tingida em outro tom de cinza.
Chamam de glória o que o abate sintetiza.
Dizem que "Deus está conosco" em cada plano,
Esquecendo que Deus, há tempos, deixou o bando,
Desviou o olhar de nossos jogos de engano.
Da favela à redoma do legislador soberano,
O mofo corrói o papel do plano humano,
Enquanto a constituição só embrulha o lixo,
Que não ocultamos no nosso desapontamento fixo.
Cremos na nação como quem crê em assombração.
O sangue não para, escorre da tratativa,
Desce os mármores da sede administrativa,
E mancha o carpete onde o patrão descansa.
O epitáfio é simples, sem esperança:
Aqui jaz o homem que lutou por um futuro,
Vendido antes de nascer, num pacto escuro.

