Mapas De Papel
Composição: Walber Costa.Letra: Mapas de Papel
Você guardava tempestades em conserva
Dentro de caixas de sapato,
Enquanto eu colecionava esquinas
Que minhas pernas nunca ousaram cruzar.
Vivíamos como dois faróis cegos
Ancorados no mesmo oceano de breu,
Esperando que algum navio à deriva
Ancorasse o que a gente perdeu.
As paredes engoliam nossos segredos,
Cúmplices de um mudo armistício,
E os relógios da cozinha congelavam
No compasso do nosso próprio eclipse.
Eu vi você dobrar os seus sonhos
Como quem guarda uma bandeira de guerra,
E prensar cada pedaço de céu
No inventário de uma enciclopédia morta.
Pássaros de concreto nidificavam
Em nossos telhados de vidro,
Enquanto um inverno feito de cinzas
Invernava em nosso quarto esquecido.
Éramos duas pátrias soberanas
Divididas por um abismo de água,
Erguendo pontes com o sopro do cigarro
Sobre uma terra devastada.
E eu dizia:
"Não tema a nudez dos desertos,
Eles são apenas oceanos que perderam a memória."
Mas você decifrava o assoalho,
Como quem busca o rastro do sangue
Nas rachaduras da nossa história.
E enquanto a terra girava em delírio,
Tragando as estações do ano,
Bordávamos nossa própria sobrevivência
Com os estilhaços de um céu soberano.
As cidades brotam como florestas de ferro
Em terrenos de cal e esquecimento,
E as pessoas colidem e passam
Como comboios cegos no vento.
Talvez a vida seja apenas isso:
Mapas rabiscados à mão, com pressa,
Linhas cegas tateando o sentido
Nas dobras que o tempo confessa.
Eu quis edificar uma fortaleza
Com as pedras dos nossos naufrágios,
E acender as janelas de todas as salas
Para espantar os antigos presságios.
Porque há assombrações que rejeitam a tumba,
Não habitam a terra fria;
Eles sentam-se conosco à mesa,
Folheando o calendário,
Devorando a luz do dia.
E existem adeus que nunca cicatrizam,
Que não sabem dizer adeus;
Eles apenas trocam de roupagem,
Vagando como sombras civis
Sob os olhos dos teus.
Se a bússola quebrar e você se perder,
Navegue a favor dos ventos errados.
Eles conhecem os pontos cardeais
Que a cartografia rasurou do passado.
Andando sob a espinha dos prédios
E a teia elétrica dos fios,
Lembre-se:
Até as águas mais exaustas
Desembocam na imensidão do mar.
Mesmo depois de rasgarem a terra
Sem ninguém para as guiar.

