O Avião
Composição: Walber Costa.Título: O Avião
Caminhávamos sem pressa, o asfalto morno sob os pés,
Meu filho, com os olhos de quem ainda desenha o mundo.
Ele parou, olhou para o azul infinito lá no alto,
E com a voz pura de quem busca o abismo da verdade, perguntou:
"Pai, na vastidão de tudo o que existe, qual o tamanho de Deus?"
Eu segui seu olhar, busquei na tela do horizonte,
Um pontinho prateado, um risco de giz num quadro imenso.
"Veja", eu disse, apontando para o céu distante,
"Deus é do tamanho daquele avião, meu filho."
Ele franziu a testa, o brilho do sol o obrigou a apertar os olhos.
"Mas pai", ele suspirou, um pouco triste pela pequenez,
"Aquele avião... é um grão de poeira no infinito.
Quase não se vê, é quase nada contra a imensidão do céu."
Eu sorri, peguei sua mão pequena, e mudamos a direção.
O caminho nos levou ao aço, ao ruído, ao gigante adormecido na pista.
Quando as rodas tocaram o chão e a estrutura metálica cresceu diante de nós,
Como uma montanha de engenho e sonhos suspensos,
Eu lhe disse: "Agora, olhe novamente. Qual o tamanho d'Ele?"
O garoto recuou, o pescoço inclinado para trás,
Os olhos faiscando com o reflexo do alumínio e da luz.
"Nossa, pai", ele respondeu, com a respiração suspensa,
"Ele é enorme... ele toca as nuvens, ele é tudo o que vejo."
Eu me abaixei, toquei seu ombro e sussurrei a chave do segredo:
"Assim é a vida, assim é o eterno, assim é o que nos guia.
O tamanho de Deus não muda no céu, é a distância que desenha o seu olhar.
Quanto mais perto você caminha, quanto mais o seu coração se faz vizinho,
Maior Ele se torna...
Até que você entenda, meu filho,
Que o avião não mudou.
Foi você quem aprendeu a ver."

