Sombras Na Terra Que Lembra, Bento E A Lenda De Um Sertão Sem Lei
Composição: Walber Costa.Sombras na Terra Que Lembra, Bento e a Lenda de um Sertão Sem Lei
[Verso 1]
Sertão de terra rachada, onde o sol é juiz
O nome de Bento era a única lei no país
Com a faca na cinta e o ódio no olhar
Fazia o chão tremer só de ouvir seu nome passar
[Verso 2]
Deixava um rastro de pó e de lamento
Não tinha amigo, só o vento e o tormento
Sua fama corria mais rápida que o trovão
Um homem forjado na brasa da solidão
[Verso 3]
Mas um dia, nos olhos de um menino assustado
Viu o reflexo do monstro que havia criado
Uma gota de culpa no peito secou
E pela primeira vez, Bento fraquejou
[Verso 4]
Na calada da noite, enterrou seu punhal
Jurou pra si mesmo um destino final
Longe da poeira, da morte e do mal
Queria ser só um homem, um homem normal
[Verso 5]
Pegou a viola, um velho companheiro
E partiu pela estrada, um novo passageiro
Tocava cantigas que ninguém conhecia
Em busca da paz que há muito perdia
[Verso 6]
Andou por léguas, mudou o seu nome
Tentou apagar a sede e a fome
A fome de ser o que sempre foi
Mas o passado é um bicho que vem sempre depois
[Verso 7]
Mas o tempo não tem piedade
Nem respeita quem quer mudar
A poeira cobre as pegadas
Mas não consegue apagar
[Verso 8]
Bento seguiu sem destino
Com o peito cheio de ruína
Cada estrada parecia
Levar de volta à mesma esquina
[Verso 9]
Numa vila esquecida ao norte
Onde o sol parece pesar
Ele entrou sem ser notado
Tentando só descansar
[Verso 10]
Mas um velho olhou diferente
Como quem já viu aquele olhar
E sussurrou pra si mesmo
“Isso aqui vai recomeçar…”
[Verso 11]
Naquela noite sem lua
O silêncio voltou a pesar
E um sino velho da igreja
Começou a badalar
[Verso 12]
Duas sombras na porta
Sem pressa de anunciar
E uma voz conhecida
Que ele não quis acreditar
[Outro]
E quem passa por aquela estrada
Diz que ainda pode ouvir
Uma viola perdida no tempo
Sem nunca conseguir partir…

