Album Tripalium

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Descobrir, através da arte musical e poética, uma forma de denunciar a relação social fetichista que ora nos impõe um modo destrutivo de viver e, ao mesmo tempo, buscar a sua superação e proporcionar o prazer que a música sempre nos dá, é o objeto deste CD. Tratar de um tema de tão complexa compreensão sob a forma poético-musical, procurando expurgar da arte a sua contaminação mercadológica, é a tarefa difícil, e ainda assim modesta, a que nos propusemos como forma de contribuição a uma conscientização necessariamente inadiável.

O percurso da humanidade no planeta Terra, que segundo estudos mais confiáveis remonta há 250.000 anos (homo erectus, com o cérebro desenvolvido), registra um episódio histórico recente, iniciado há apenas 2.700 anos, mas que agora entra no seu ocaso, iniciando um rastro de destruição fantasmagórico e que é absolutamente ignorado intencionalmente na sua essência pela grande mídia, pela academia, e pelo pensamento político-econômico oficial - a essência da relação social sob a forma-valor, expressa na mercadoria e no dinheiro (mercadoria especial). Agora, quando essa relação social começa a dar sinais suficientemente fortes de um iminente colapso que está a nos arrastar a todos para um abismo de conseqüências inimagináveis, explicações as mais diversas, mas todas periféricas, sem “botar o dedo na ferida”, são elaboradas e divulgadas, e ações conjuntas de governos e mercados são adotadas como tentativa de remediar o irremediável, de salvar o sistema capitalista ou adiar a sua morte, mas nunca de superá-lo, de transcendê-lo na sua essência destrutiva e autodestrutiva.

O dinheiro surgiu na Grécia antiga onde se formou embrionariamente a primeira forma de Estado, dentro de um conceito jurídico-institucional capaz de regular as relações sociais sob a sua lógica. Aí, nascia um novo Deus, um novo fetiche a ser adorado globalmente pelos seus súditos incautos, e a ditar regras de comportamentos absolutamente destituídas de virtudes, mas muito bem mascaradas sob a idéia aparentemente isonômica do conceito de democracia, onde, pretensamente, todos podem ficar ricos, independentemente de raças ou estratificação social... Desde que consigam eliminar os seus concorrentes na corrida autofágica pela hegemonia do mercado!

Mas o que é mesmo o dinheiro? Os manuais de economia costumam dar uma explicação funcional sobre o seu conceito, tratando-o como se fora um ingênuo e útil instrumento facilitador de algo que seria pretensamente benéfico para a humanidade - as trocas de mercadorias. Assim procedendo, mascaram o verdadeiro conteúdo fetichista, negativo, opressor, destrutivo e autodestrutivo dessa forma de relação social abominável. Na verdade, o dinheiro, mercadoria que funciona como o equivalente geral (a mercadoria das mercadorias) é a expressão materializada, mensurável e condutora de uma abstração - o valor.

E o que é o valor? Uma relação social estabelecida e mensurada pelo tempo de trabalho abstrato coagulado nas mercadorias, e que resulta num processo de formação e acumulação de riqueza abstrata de modo segregacionista. Assim, o valor é uma abstração consistente na criação de uma unidade numérica que quantifica quantidades e qualidades de diferentes objetos concretos, dando-lhes, simultaneamente, uma conotação abstrata, transformando-os em mercadoria, algo ao mesmo tempo concreto e abstrato (valor de uso e valor de troca), destinados ao mercado, como forma de se dar vazão a essa cumulatividade segregacionista. O valor é uma abstração que comanda negativamente as nossas vidas.

A lógica de reprodução do valor implica necessariamente na acumulação crescente de tempo de trabalho abstrato sob a forma da mercadoria (riqueza abstrata), donde o seu caráter segregacionista Assim, é inerente a sua existência a necessidade de sua multiplicação contínua, via extração de mais-valia (como a velocidade o é para o equilíbrio da bicicleta), geradora da acumulação igualmente segregacionista de riqueza abstrata de um lado, e em contrapartida a uma imensa acumulação de pobreza material (e abstrata, consequentemente) por outro lado, independentemente de quem ative esse processo, seja o Estado como empresário (marxista tradicional ou liberal burguês), ou o capitalista privado, ou ainda uma sociedade cooperativa de trabalhadores.

Nesse processo a forma valor cresce e se desenvolve destrutivamente até o momento em que a corrida concorrencial e o desenvolvimento tecnológico passam a substituir, numa escala maior, o trabalho abstrato (trabalho vivo, único produtor de valor) pelo trabalho das máquinas (trabalho morto, não produtor de valor), como agora está a acontecer, com o desenvolvimento da microeletrônica, da cibernética, da comunicação via satélite, e de outros fenômenos do saber humano aplicados à produção. Nesse momento, a forma valor, que desde o seu surgimento era essencialmente negativa, porque geradora de violência e estratificações excludentes e abismais na vida social, dessubstancializa-se e passa a entrar em colapso interno definitivo, prenunciando o seu fim irreversível. Essa é a explicação sincera que envolve os contornos da crise do sistema financeiro e da chamada economia “real”, que os seus defensores não podem (e não querem) admitir.

Entretanto, a autodestruição da forma-valor e, conseqüentemente, de sua negatividade, não significa, por si só, um alívio para a humanidade, vez que isso pode ocorrer sob a forma de turbulências sociais inimagináveis, onde se instale a barbárie social ou uma hecatombe humana pela guerra. A autodestruição da forma valor implica num perigoso processo de convulsão das relações de poder que pode nos arrastar para um momento de extrema crueldade, como já ocorreu recentemente durante a segunda guerra mundial, que nada mais foi que a disputa de poder mercadológico e, consequentemente, político, como resultado da depressão econômica de 1929/1930. Compreendermos a necessidade de superação transcendental dessa relação social fetichista sob a qual vivemos, comandada pela forma valor, expressa nas mercadorias e no dinheiro, evitando-se a destruição da humanidade pela barbárie ou pela hecatombe da guerra é condição inadiável de sobrevivência que se nos coloca agora impositivamente.

Um abraço a todos e espero que ouçam as músicas, dancem e celebrem a vida desfetichizada que virá.
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Nota (1) - A palavra “tripalium” é um termo latino que significa “tortura”, e deu origem, não sem motivo, à palavra trabalho, categoria capitalista que em nada dignifica o ser humano, mas apenas o oprime e o submete de modo fetichista. A atividade humana em interação com a natureza, destinada à satisfação das necessidades humanas, inclusive com a utilização das máquinas e do saber tecnológico, deve ser prazerosa e consciente, e não deve ser confundida com trabalho, atividade produtora de mercadorias, de valor e de sofrimento.

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