Cachorro Em Tiroteio
Composição: CLAUDIO AGÁ.Cachorro em tiroteio
Letra e música: Claudio Agá
Há um zumbido estranho
insistindo,
uma sirene de velório,
como aqueles apitos agudos
que só cachorros ouvem.
Como o grito dos soterrados,
ou a poesia dos golfinhos.
É freqüência não reconhecida.
Língua nunca cadastrada.
Um trovão no horizonte.
É a explosão de ontem...
Choro de seqüestrado
ou turbina sem avião.
É como o sinal vermelho para cegos.
Voz de líder sem multidão.
Vírus disparado de Lan House,
sem que haja conexão.
É como alerta de alto-falante
ecoando em salão vazio.
Tipo confissão de mudo,
ou dar conselhos em Latim.
São Paulo em feriado,
fazer festa sem vizinho.
Buteco em convento Carmelita;
domingo à tarde sem criança.
O timbre de voz do Carlitos;
sirene falsa de ambulância.
Guardinha sem apito;
sala sem televisão.
O suspiro de adeus que emite
a última estrela da mais distante constelação.
Jimmy Hendrix sem luz elétrica;
Pavarotti com banquinho e violão.
Palhaço que não ri nem faz careta.
Um DJ sem carrapetas.
Fazer gol sem ter torcida;
o best-seller na gaveta.
Falar em despedida.
Buzinar na contramão.
Sintoma em doente distraído.
Elogio de inimigo.
Desculpas de assassino,
ou Carnaval sem Joãozinho.
Brigar sem dar um grito;
amar sem ter tesão.
A cigarra que o verão anuncia
na esquina da Paulista com a Consolação.
Alarme de um banco na Rocinha;
pedir socorro no formato de canção.

