Galáxia

EstiloRock
Cidade/EstadoBrusque / SC
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No ano de 2007, em uma tarde quente de sexta-feira, em um beco no bairro Sta. Rita onde morava Luis Fernando Machado, foi delineado um projeto de música alternativa que algum tempo depois passou a ser chamado de Galáxia. Formado inicialmente por Jean e Louis, o Galáxia era na época, basicamente, um projeto de música itinerante. Eram dois violões e a estrada em direção ao litoral.

Sim, a itinerância sempre foi determinante para os trabalhos do Galáxia. Sempre houve a recusa em se manter em um mesmo lugar, uma paixão pelo movimento e pelo transitório que preparou a ocorrência de encontros com novos lugares e pessoas. Eis o que constitui a essência desse projeto, o movimento e o inesperado. Nesse sentido, é preciso destacar que as primeiras músicas Barco Fechado, 21 de dezembro, O Vinho Novo foram praticamente compostas ao ar livre em diferentes praias da cidade de Itajaí. Eram tardes e noites de solos de violão intermináveis ao sabor do vinho, muitas vezes na companhia de ilustres desconhecidos que se juntavam a esses rituais.

Estávamos no fim da primeira década do século XXI. A sensação era de que os sonhos da nossa geração haviam sido roubados. Falava-se no crescimento econômico, no fim da pobreza, no brilhante futuro que se construía baseado na produção e no consumo em massa, mas o que se sentia nas pessoas era uma ansiedade lancinante, uma fuga no olhar, o desespero de vidas que inconscientemente sofriam com a mediocridade. Assim como Jim Morrison na década de 1970, nós nos perguntávamos naqueles dias: Where is the new wine? Dying on the vine?

Felizmente, a paixão pela arte, sempre levou as sociedades humanas a alguma saída de sua estagnação. Um exemplo na história antiga foi o grande incêndio de Roma em 64 d.c, que durante seis dias destruiu os palácios do império e os templos dos deuses; foi causado pelo próprio imperador, Nero, que buscava inspiração para concluir uma poesia. A potência de uma ação como essa só poderia ter sido liberada em busca da transcendência através da arte. Em suas músicas, o Galáxia buscou gerar essa transcendência nas pessoas que estavam em uma situação em que viver já não vinha antes de todas as coisas. Desejávamos beber juntos do vinho novo cantando as canções que embalariam sua fruição.

Com o tempo, apostou-se em uma maior complexidade das composições. Para tanto, acrescentaram-se às músicas – até então basicamente acústicas – solos executados na guitarra, linhas de contrabaixo, bateria, texturas em metais, ritmos de bateria eletrônica, vocalizações, dentre outros elementos. Foram convidados novos músicos para trabalhar as canções visando a gravação de um álbum. Primeiramente, Lucas Maurice e Raphael Kempt que assumiram, respectivamente, contrabaixo e bateria acrescentando peso e velocidade a canções como o Fim de Partida, o Jogador e Velhas Cidades. A presença deles foi vital, extremamente criativa e transformadora. Mesmo canções como Formas Impuras, o Avesso, e Doses de Medo, que buscavam trabalhar de forma mais direta com o poder das palavras, ganharam um novo contorno e ambiência com esses dois integrantes que colocaram novamente em primeiro plano a melodia. O Divisor, o Legado de Solozzo e Combray são músicas que, ao serem levadas para o estúdio, tiveram grande contribuição de Deny Bonfante na produção e, sobretudo, na composição do solo visceral de Combray que por duas vezes teletransporta os ouvintes para uma outra dimensão. Os músicos Alan Amorim (percussão) e o trio de metais composto por Helio Reichert (Saxofone), Jackson Marquezine (Trombone) e Edson Sevegnani (Trompete) colaboraram de forma criativa para o projeto ao se juntarem a nós no estúdio.

O primeiro álbum do Galáxia foi gravado em três sessões durante o ano de 2012 no estúdio do Deny em Blumenau. Assim que concluída as gravações, metade das músicas foi disponibilizada sem custo para download na internet. O álbum físico foi lançado no verão de 2013\2014.

Atualmente, o projeto Galáxia trabalha na composição de um novo repertório com a ambição de gravar um álbum duplo. Pré-gravações já estão sendo realizadas no estúdio da banda Claviceps Purpurea. A intenção desse segundo trabalho é ampliar ainda mais o projeto com a participação de novos músicos e instrumentistas. Segue-se acreditando no poder criador da música frente à estagnação da vida cotidiana. Para o Galáxia não há outra escolha. Fomos contaminados pela música e com ela caminhamos sem ter um caminho.

Finalizando, lembro-me de uma conversa com o Louis em que discutíamos o sentido da vida na arte e da arte na vida. Tal conversa foi marcante para a realização do Galáxia. Nos questionávamos a respeito do que restaria quando já não estivéssemos aqui no futuro. Louis precisamente me disse: “Não eu! Mas o que eu fiz!”. Foi quando eu entendi que a música é a eternidade.

Jean Glass – http://odobrodetudo.blogspot.com.br/

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