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​O ​jornalista Otávio Rodrigues, o Doctor Reggae, fala sobre Jai Mahal e o disco Invisívelman lançado em 2014.

JAI MAHAL – Invisívelman

Primeiro, antes de conhecer o cara, ouvi falar dele. Não era bem um superstar, mas gravitava entre descolados, músicos e outros talentos das artes, como eu começava a descobrir. Vivíamos então no longínquo século 20, em algum momento no início da era de 1980 e o reggae no Brasil era um deserto ensolarado, por onde raros beduínos caminhavam solitários e cheios de sede à procura de seus iguais. Nas conversas à sombra dos camelos, sempre acompanhadas de um chá dos bons, se ouvia dizer que um jovem de nome Jai Mahal, talhado entre a alta cultura e as tradições das Índias, cultuava a Jamaica e seus artistas – além de bem mesmo já ter ido até lá, onde tudo começou. A certa altura, se tivessem me contado que ele conhecera Cristóvão Colombo, eu não duvidaria.

Ficamos amigos e logo estava desfrutando de sua generosidade na casa da rua Polônia, ombro a ombro com uma legião de devotos dos ritmos jamaicanos – na verdade, uma valorosa meia dúzia de pioneiros, como os irmãos Rica “Caveman” e Tiano Lancellotti, Pedro e Marcelo Mangabeira, Cré e Clelington Ferreira, além de Betão Silva, Roba Petrucci, Leninha Anhaia, Gil Colle e Gerson Surya, entre outros bambas que ali zanzavam naquelas tardes perdidas para sempre. Um tal de Nando Reis era parceiro celular do Mahal, com quem formara a banda Os Camarões (prestando atenção, ainda se percebe um pouco de um no outro até hoje). Pois nesse nobre estúdio de ensaios e alegrias, toscamente adaptado em um quartinho 3x4, havia sempre um baixo, uma guitarra e uma quase-bateria, pronta pra receber a caixa e os pratos que alguém por acaso trouxesse. Dali saíram bandas como Walking Lions, Os Pacíficos da Ilha, passaram Nomad, Sinsemilla, todas muito importantes, senão pelo sucesso estrondoso, mas por terem ajudado a abrir caminho nesse período formativo da cultura reggae brasileira.

Difícil não levar tudo isso em conta agora, quando Jai Mahal lança Invisívelman, mais um numa lista de três discos. No que o encarte desdobra e compõe o painel de fotos, uma nuvem vaporosa traz esses e outros momentos de um personagem improvável, ativo em programas de rádio – entre eles, o histórico Reggae Raiz, com (por vezes, contra) China Kane, há 26 anos no ar –, produtor de incontáveis shows e festas e mesmo algumas provocações, como a de encarnar um sábio rasta a bordo de um sofá na calçada da MTV. Como sugere a intrigante capa do CD, o homem invisível tem penas de pavão.

Em vez de participações internacionais, como fez anteriormente, neste disco Mahal aproveita a flora e a fauna de São Paulo, Maranhão e

Pernambuco. A produção é de Gerson da Conceição, baixista, cantor e compositor criado em São Luís ao som das radiolas, hoje com uma faculdade de música nas costas, consagrado no grupo Mano Bantu e dono de um portfólio de atuações e produções ao lado de Rita Ribeiro, Zeca Baleiro, Criolina e Tribo de Jah, só pra não estender a conversa. Junto com Flávio Bagão na bateria, Gerson põe o baixão pra trabalhar de ponta a ponta no disco.

As mixagens são de Buguinha Dub e Victor Rice. O primeiro tem extensa folha corrida ao lado dos Racionais MCs, Nação Zumbi, Cordel do Fogo Encantado, Lucas Santtana, DigitalDubs e longa lista. Já o norte-americano, um aspirante a brasileiro que vive parte de seu concorrido tempo em São Paulo, expõe a assinatura em obras dos Slackers, The Toasters, Bixiga 70, Marcelo Camelo e Firebug, afora as contribuições no som do Superstar All Stars, dos álbuns Dub Side of the Moon, Radiodread e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Dub Band.

O disco tem também encontros impensáveis, como o de Lúcio Maia da Nação Zumbi e Osvaldinho da Cuíca em “Domingo 23”, de Jorge Benjor. Cidadão-samba paulistano, cantor e compositor, um dos maiores percussionistas brasileiros, Osvaldinho é uma dessas bibliotecas vivas que a maioria ainda está por descobrir. Arnaldo Antunes e Isaar França aparecem em “Sarou”, de Arnaldo, Mahal e Edi Ferreira. Isaar é a cantora pernambucana que rodou o mundo com DJ Dolores, além de fundadora do grupo Comadre Fulorzinha, com Karina Buhr e outros da turma. O Mahal, claro, só anda em boa companhia.

Entre clássicos do repertório mahalino, como “Vila Madalena”, “O Homem Invisível” e “Pérolas” (aqui em versão dub de Roba Petrucci e Ricardo Câmara), ouvi e reouvi este Invisívelman sem me sentir na Jamaica, entre nuvens de fumaça e toques de tambor, como se costuma dizer por aí. Quero dizer que a música do Mahal tem traço próprio, não mimetiza a cultura rasta nem segue fielmente as liturgias rítmicas, melódicas e harmônicas do reggae. Pelo menos, não o tempo todo: em “Stand Alone” de Bob Marley, dá gosto em ver o capricho com que persegue o original, a despeito de seus tão refinados e característicos arranjos vocais. Soa como uma homenagem.

Não que eu queira alimentar o mito, mas por vezes me pergunto se existe apenas um Jai Mahal ou vários, mancomunados em engenhosa encenação. Ora, como ele consegue estar em todas? A ciência haverá de descobrir.

Otávio Rodrigues